LITERATURA

 Fábulas para o nosso tempo:
                                        James Thurber 

James Thurber ( 1894- 1962 ) foi um escritor e artista americano, tendo trabalhado para a revista New Yorker, publicando muitos livros. É  considerado um dos maiores humoristas modernos. Nas sua "Fábulas para nossos tempos", adapta às condições modernas a forma clássica da fábula. Estas pequenas peças são sempre divertidas, mas muitas delas ( como " Os Coelhos que Causaram Todo o Problema ") contêm, ainda, um comentário sério acerca do comportamento humano.
Traduzido por Elpídio M. D. Fonseca

O RATO QUE FOI PARA O CAMPO

Era uma vez num domingo um rato da cidade que foi visitar um rato do campo. Ele se escondeu num trem que o rato do campo lhe tinha recomendado tomar, mas descobriu que, aos domingos, o trem não parava em Beddington.  Por  isso, o rato da cidade não pôde descer em Beddington e tomar um ônibus até   o entroncamento de Sibert, onde ele se encontraria com o rato do campo. Na verdade, o rato da cidade foi transportado para Middleburg, onde esperou três horas por um trem que o levasse de volta. Quando ele voltou para Beddington, descobriu que o último ônibus para o entroncamento de Sibert tinha acabado de sair. Então ele correu, correu, correu e finalmente tomou o ônibus, arrastando-se para dentro, para logo descobrir, porém, que aquele não era o ônibus para o entroncamento de Sibert, mas estava indo para a direção oposta, por Pell's Hollow e Grumm até um lugar chamado Wimberby. Quando o ônibus finalmente parou, o rato da cidade desceu numa chuva torrencial e descobriu que naquela noite já não havia nenhum ônibus indo para lugar nenhum. " Para o inferno com isso ", disse o rato da cidade, e ele caminhou de volta para a cidade.
Moral: Fique onde você está, você está com tudo.
CHAPEUZINHO VERMELHO E O LOBO

Numa tarde, um lobão esperou numa floresta escura por chapeuzinho vermelho que passasse, trazendo consigo uma cesta de comida para sua avó. Finalmente  chapeuzinho vermelho apareceu, e ela estava carregando uma cesta de comida. "Você está levando essa cesta para sua avó?" perguntou o lobo. Chapeuzinho vermelho disse que sim, estava. Então o lobo perguntou a ela onde morava sua avó, e chapeuzinho vermelho disse a ele  e o lobo desapareceu no meio da floresta.
Quando chapeuzinho vermelho abriu a porta da casa de sua avó, ela viu que havia alguém na cama, vestido com um gorro de dormir e uma camisola. Ela não se tinha aproximado ainda sete metros da cama, quando viu que não era sua avó, mas o lobo, pois mesmo com um gorro um lobo não se parece mais com sua avó do que o leão da Metro Goldwyn se parece com o Presidente dos Estados Unidos. Então a chapeuzinho vermelho tirou uma pistola automática de sua cesta e disparou no lobo, matando-o.
Moral: Não é tão fácil  enganar chapeuzinhos vermelhos hoje em dia como costumava ser.

OS DOIS PERUS

Era uma vez dois perus, um peru velho e um peru jovem. Fazia tempo que o peru velho era chefe do cercado, e o peru jovem queria tomar-lhe o lugar.         " Qualquer dia desses vou dar uma surra naquele velho ", disse o peru jovem  a seus amigos. "Com certeza, Joe, com certeza ", diziam-lhe seus amigos,  pois corria por conta de Joe o milho que eles comiam. Então os amigos foram contar ao peru velho o que o peru jovem tinha dito. " Ah! Vou comer a moela dele!, disse o peru velho, oferecendo milho para suas visitas. "Com certeza, doutor, com certeza", diziam as visitas.
Um dia, o peru jovem se dirigiu até o lugar onde o peru velho estava contando casos de suas proezas na batalha." Vou enfiar seus dentes no seu papo ", disse o peru jovem. "Você e quem mais?", disse o peru velho. Então passaram a girar em torno um do outro, lutando com os pés, esperando o começo da luta. Eis que o fazendeiro que era dono dos perus precipitou-se sobre o peru novo e o levou e lhe torceu o pescoço.
Moral: A juventude será servida, freqüentemente recheada de castanhas.

O TIGRE QUE ENTENDIA AS PESSOAS

Era uma vez um tigre que escapou de um zoológico nos Estados Unidos e voltou para a selva. Enquanto cativo, o tigre aprendera muito sobre como os homens fazem as coisas e ele pensou que aplicaria o método deles à vida na selva. No primeiro dia em que voltou para casa, ele encontrou um leopardo e lhe disse: "Não é preciso que você e eu cacemos, para nos alimentarmos; faremos os outros animais trazer a comida para nós." "Como faremos isso?" perguntou o leopardo. "Fácil", disse o tigre, "você e eu diremos a todo mundo que lutaremos, e todo animal terá de trazer um javali, morto há pouco, para poder entrar e ver a luta. Então fingiremos lutar e não machucaremos um ao outro. Mais tarde, você pode dizer que quebrou um osso de sua pata, durante  o segundo assalto e eu direi que quebrei um osso de minha pata, durante o primeiro assalto. Então anunciaremos um novo combate, e eles terão de     trazer-nos mais javalis." "Não acho que isso vai funcionar", disse o leopardo. "Ora, claro que vai", disse o tigre. "Basta você sair por aí, dizendo que você não pode deixar de ganhar, porque eu sou um grande boboca e eu sairei por aí, dizendo que eu não vou perder, porque você é um grande  boboca, e todo mundo vai querer vir e ver a luta."
Então o leopardo saiu por aí, dizendo a todo mundo que não poderia deixar de ganhar, porque o tigre era um grande boboca e o tigre saiu por aí, dizendo a todo mundo que não poderia perder, porque o leopardo era um grande   boboca. Chegou a noite da luta e o tigre e o leopardo estavam muito famintos, pois não tinham saído para caçar: esperavam que a luta terminasse o mais cedo possível para comerem alguns dos javalis recém-mortos que os animais trariam para a luta. Mas quando a hora do combate chegou, nenhum animal apareceu. "O que eu acho disso é o seguinte", uma raposa lhes dissera, " se o leopardo não pode deixar de ganhar e o tigre não pode deixar de vencer, haverá um empate e um empate é uma coisa muito chata de ver, principalmente quando participam do combate  dois lutadores que são grandes bobocas." Os animais perceberam a lógica disso, e não apareceram na arena. Quando era quase  meia-noite e ficou evidente que nenhum animal apareceria e que não haveria nenhuma carne de javali para ser devorada, o tigre e o leopardo arremeteram furiosamente um contra o outro. Ambos ficaram tão feridos, e tão esgotados pela fome, que um casal de javalis que passava por lá os atacou e os matou facilmente.
Moral: Se você viver como os homens, será o seu fim.  

A MOSCA RAZOAVELMENTE INTELIGENTE

Numa velha casa, uma aranha enorme  teceu uma linda teia na qual apanhava moscas. Toda vez que uma mosca pousava na teia e nela se enredava, a aranha a devorava, de tal forma que quando outra mosca aparecia, pensava que a teia era um lugar seguro e calmo para se descansar. Um dia, uma mosca razoavelmente inteligente zumbiu tanto tempo acima da teia, sem pousar, que a aranha apareceu e disse, "Desça aqui." Mas a mosca, que era muito inteligente para ser apanhada pela aranha, lhe disse, "Eu nunca pouso onde não vejo outras moscas; e não vejo nenhuma outra mosca em sua casa." Então ela foi embora voando, até que chegou a um lugar onde havia muitas outras moscas. Estava prestes a pousar entre elas, quando uma abelha apareceu zumbindo e disse, "Pare, estúpida, aquilo é papel pega-mosca. Todas aquelas moscas estão presas." "Não seja tola", respondeu-lhe a mosca, "elas estão dançando". Então ela pousou e ficou presa no papel pega-moscas,  junto com todas as outras moscas.
Moral: Não há nenhuma segurança nos números, nem em coisa alguma.

O LEÃO QUE QUERIA VOAR

Era uma vez um leão que cobiçava as asas de uma águia. Então, mandou uma mensagem para a águia, pedindo-lhe que aparecesse, e quando a águia chegou à caverna do leão, o leão lhe disse, "Quero trocar minha juba pelas suas asas." "Sai dessa, meu irmão", disse a águia. "Sem minhas asas, eu não poderia mais voar." "E daí?" disse o leão. "Não posso voar agora, mas isto não me impede de ser o rei dos animais. Tornei-me rei dos animais por causa de minha maravilhosa juba." "Tá bom", disse a águia, "mas dê-me sua juba primeiro." "Aproxime-se um pouco mais", disse o leão, "para que eu possa dá-la a você." A águia se aproximou um pouco mais, e o leão lhe deu uma grande patada, pregando-a no chão. " Dê-me aqui essas asas!" rosnou ele.
Então o leão pegou as asas da águia, mas ficou com sua juba. A águia ficou por um tempo muito desanimada, mas logo teve uma idéia. "Aposto que você não consegue voar do topo daquela grande pedra além", disse a águia. "Quem, eu?" disse o leão, e ele subiu até o topo da pedra e saltou. Seu peso era demasiado para as asas da águia o suportarem, e, além disso, ele não sabia voar, pois nunca tentara antes. Então ele caiu ao pé da pedra e se estatelou. A águia rapidamente desceu até ele e recobrou suas asas e tirou a juba do leão, que colocou ao redor de seu pescoço e ombros. Voando de volta ao ninho  de rocha onde morava com sua esposa, resolveu pregar-lhe uma peça. Então, coberto com a juba do leão, enfiou a cabeça no ninho e, numa voz profunda e horrorosa disse "Orrrrrrrr!" Sua esposa, que era muito nervosa, pegou uma pistola que estava dentro da gaveta de uma escrivaninha e  disparou contra ele, matando-o, pensando que ele era um leão.
Moral: Nunca permita que uma mulher nervosa tenha acesso a uma pistola, não importa o que você esteja vestindo.
O GANSO INDECENTE

Não faz muito tempo, havia um ganso muito refinado. Ele era forte, sereno e bonito e passava a maior parte do tempo cantando para sua mulher e filhos. Um dia, alguém que o viu andando e cantando cerimoniosamente para cima e para baixo em seu quintal notou: "Eis um modelo de decência." Uma velha galinha ouviu isso por acaso e contou a seu marido à noite, no poleiro. "Disseram alguma coisa acerca de indecência", disse ela. "Sempre suspeitei disso", disse o galo, e no dia seguinte saiu pelo terreiro, dizendo a todos que o ganso refinado era uma ave perigosa, um falcão em roupa de ganso. Uma galinhazinha marron lembrou-se de ter visto uma vez o ganso, conversando com alguns falcões na floresta. "Eles estavam planejando alguma coisa", disse ela. Um pato lembrou-se de que o ganso lhe dissera uma vez que não acreditava em nada. Ele disse "Para o inferno com a bandeira também", disse o pato. Uma galinha d'angola lembrou-se de ter visto uma vez alguém que se parecia muito com o ganso lançar algo que se parecia muito com uma bomba. Finalmente todos pegaram de paus e pedras e desceram até a casa do ganso. Ele estava andando cerimoniosamente na frente de seu quintal, cantando para seus filhos e mulher. "Ali está ele!", gritaram todos. "Amante de falcões! Descrente! Inimigo da bandeira! Lançador de bombas!" Assim eles o atacaram e o expulsaram do país.
Moral: Quem quer que você ou sua esposa ache que vai derrubar o governo pela violência deve ser expulso do país.

A MARIPOSA E A ESTRELA

 Certa vez, uma mariposa jovem e impressionável  almejou certa estrela. Ele contou a sua mãe, que o aconselhou a, em vez disso, almejar uma lâmpada de ponte. "Estrelas não são lugares para se perambular", disse ela, "lâmpadas são lugares para se perambular." "Assim, você chegará lá", disse o pai da mariposa. "Você não irá a lugar nenhum, caçando estrelas."  Mas a mariposa não prestaria atenção às palavras de nenhum de seus pais. Todas as noites, quando escurecia e a estrela aparecia, ele começava a voar em direção a ela, e toda manhã, ao nascer o sol, ele se arrastava para casa, esfalfado por sua vã tentativa. Um dia, seu pai lhe disse: "Faz meses que você não queima uma asa, rapaz, e parece-me que você nunca vai fazê-lo. Todos os seus irmãos se queimaram gravemente, voando ao redor de lâmpadas de rua e todas as suas irmãs se chamuscaram muito, voando ao redor de lâmpadas de casa. Ora, vamos, saia e se chamusque! Uma mariposa grandalhona como você sem nenhuma marca!"
A mariposa deixou a casa de seu pai, mas não voaria ao redor de lâmpadas de rua nem ao redor de lâmpadas de casa. Ele continuou a tentar alcançar a estrela, que estava a quatro anos e três meses anos luz, ou quarenta trilhões de quilômetros de distância. A mariposa pensou que a encontrara no topo de um olmo. Ele nunca conseguiu alcançar a estrela, mas continuou a tentar, noite após noite, e quando ficou uma mariposa muito, muito velha, começou a pensar que realmente tinha atingido a estrela e saiu por aí dizendo. Isto lhe deu um prazer profundo e prolongado, e ele viveu até uma idade avançada. Seus pais, seus irmãos e suas irmãs, todos, se queimaram até a morte, enquanto eram ainda muito jovens.
Moral: Quem voa para longe da esfera de nosso sofrimento está aqui hoje e está aqui amanhã.   

O PICA PAU VERDE E OS ESQUILOS LISTRADOS

Era uma vez dois esquilos listrados, um macho e uma fêmea.
O esquilo listrado macho achava que arrumar as nozes de modo artístico era mais divertido do que apenas empilhá-las, para ver quantas você conseguia empilhar. A fêmea achava que o melhor era empilhar quantas mais você pudesse. Ela disse ao marido que se ele parasse de fazer desenhos com as nozes, haveria mais espaço na sua larga toca para muitas mais e ele se tornaria, em breve, o mais rico esquilo listrado das florestas. Mas ele não a deixava interferir com os desenhos dele, então ela ficou furiosa e o deixou. "O pica pau verde vai pegá-lo", disse ela, "porque você é incompetente e não sabe cuidar-se." Na verdade, ainda não fazia três dias que o esquilo listrado fêmea tinha partido, quando o esquilo listrado macho teve de aprontar-se para um banquete e não conseguiu achar seus botões do colarinho, nem a camisa nem os suspensórios. Então não pôde ir ao banquete, mas isso foi bom, pois todos os esquilos listrados que tinham ido foram atacados e mortos por uma doninha.
No dia seguinte, o pica pau verde começou a rondar pelo lado de fora da toca do esquilo listrado, esperando para pegá-lo. O pica pau verde não conseguia entrar na toca porque a entrada estava entupida de roupas manchadas e louça suja. "Ele há de vir aqui fora, para uma caminhada, depois do café da manhã e aí eu o pego", pensou o pica pau verde. Mas o esquilo listrado dormiu o dia todo e só se levantou para tomar o café da manhã depois que tinha escurecido. Então ele saiu para tomar ar, antes de começar um novo desenho. O pica pau verde mergulhou para apanhar o esquilo listrado, mas não conseguia ver direito, por causa da escuridão, então ele bateu a cabeça num galho de amieira e morreu.
Alguns dias depois, o esquilo listrado fêmea voltou e viu a enorme bagunça em que a casa estava. Foi até a cama e sacudiu o marido. "O que você faria sem mim?" interpelou ela. "Vou vivendo, creio eu", disse ele. "Você não duraria cinco dias", ela lhe disse. Ela varreu a casa, lavou a louça e mandou a roupa suja para a lavanderia, e então fez o esquilo listrado levantar-se, lavar-se e vestir-se. "Você não vai ser saudável se ficar deitado na cama todo o dia sem fazer nenhum exercício", disse-lhe ela. Então ela o levou para um passeio ao sol brilhante e ambos foram apanhados e mortos pelo irmão do pica pau verde, um pica pau verde de nome  Mergulhador.
Moral: Acordar cedo e ir cedo para cama faz um macho saudável, rico e..morto.

A FOCA QUE FICOU FAMOSA

Uma foca que vivia ao sol numa rocha imensa e suave, disse de si para consigo: tudo que faço é nadar. Nenhuma das outras focas nada melhor do que eu, pensou ele, mas, por outro lado, elas nadam tão bem quanto. Quanto mais ele pensava na monotonia e uniformidade de sua vida, tanto mais deprimido ele ficava. Naquela noite foi embora nadando e juntou-se a um circo.
Depois de dois anos, a foca se tornara um excelente equilibrista. Equilibrava lâmpadas, tacos de bilhar, comprimidos, almofadas, tamboretes, charutos, e qualquer coisa que você lhe desse. Quando leu num livro uma referência ao Grande Selo[1] dos Estados Unidos, pensou que o livro se referia a ele. No inverno de seu terceiro ano como equilibrista, voltou à rocha imensa e suave, para visitar os amigos e a família. Apresentou-lhes de imediato as últimas novidades da cidade: a mais nova gíria, licor num frasco dourado, zíperes, uma gardênia em sua lapela. Equilibrou, para eles verem, tudo que havia para equilibrar na rocha, que não era muito. Quando acabou o seu repertório, perguntou às outras focas se elas sabiam fazer o que ele fizera, e todas elas disseram não. "O.K.", disse ele. "Vamos ver vocês fazerem algo que eu não saiba." Já que a única coisa que elas sabiam fazer era nadar, todas pularam da rocha no mar. A foca do circo pulou logo atrás delas, mas  estava tão enredado por suas bonitas roupas da cidade, incluindo um par de sapatos de dezessete dólares, que começou a afundar de uma vez. Porque já não nadava havia três anos, tinha esquecido o que fazer com suas barbatanas e com sua cauda, e  afundou pela terceira vez, antes de as outras focas conseguirem alcançá-lo. Elas lhe prepararam um simples, mas digno enterro.
Moral: A quem Deus equipou com barbatanas, não deve vadiar por aí com zíperes.

O CAÇADOR E O ELEFANTE

Era uma vez um caçador que passou os melhores anos de sua vida procurando um elefante rosa. Procurou na China, procurou na África, procurou em Zanzibar, procurou na Índia, mas não conseguiu encontrar nenhum. Quanto mais procurava, mais queria um elefante rosa. Ele espezinharia orquídeas negras e passaria por vacas vermelhas, tão concentrado estava em sua procura.  Então, um dia, num longínquo ponto do mundo ele encontrou um elefante rosa e levou dez dias cavando uma armadilha e alugou o serviço de quarenta nativos para ajudá-lo a levar o elefante até a armadilha. Finalmente, o elefante rosa foi capturado e levado de volta para a América.
Quando o caçador chegou a casa, descobriu que sua fazenda não era lugar para um elefante. O elefante espezinhou as dálias e peônias de sua esposa, quebrou os brinquedos de seus filhos, esmagou os animais menores das redondezas, e destruiu pianos e gabinetes de cozinha como se fossem cestas de amoras. Um dia, depois de o caçador ter o elefante por cerca de dois anos, acordou e percebeu que sua esposa tinha abandonado o seu leito e seus filhos tinham saído da mesa e todos os animais da fazenda estavam mortos, exceto o elefante. O elefante era o mesmo de sempre, exceto que tinha desbotado. Não era mais rosa. Era branco.
Moral: Um fardo na floresta vale por dois em suas mãos.

O CÃO DE CAÇA QUE SABIA DEMAIS

Era uma vez, há muitos verões, um cão de caça que foi para o campo, em visita. Concluiu que todos os cães da fazenda eram covardes, pois tinham medo de certo animal de lista branca na parte de baixo de suas costas. "Você é um  covardão, posso arrebentá-lo", disse o cão de caça ao cão da fazenda que morava na casa que o cão de caça estava visitando. "Posso arrebentar também o animalzinho de listra branca. Mostre-mo."Você não quer fazer nenhuma pergunta acerca dele?" disse o  cão da fazenda. "Não", disse o cão de caça. "Você faz as perguntas."
Então, o cão da fazenda levou o cão de caça à floresta e mostrou-lhe o animal de listras brancas e o cão de caça se aproximou dele, rosnando e atacando. Tudo acabou num minuto e o cão de caça jazia no chão. Quando voltou a si, o cão da fazenda disse, "O que aconteceu?" "Ele lançou ácido sulfúrico", disse o cão de caça, "mas ele não me acertou uma."
Poucos dias depois, o cão da fazenda disse ao cão de caça que havia outro animal de quem todos os cães da fazenda tinham medo. "Leve-me a ele", disse o cão de caça, "Posso arrebentar qualquer coisa que não use ferradura." "Você não quer fazer nenhuma pergunta acerca dele?" disse o cão da fazenda. "Não", disse o cão de caça. "Apenas mostre-me onde ele mora." Então o cão da fazenda levou-o a um  lugar na floresta e mostrou o pequeno animal, assim que este passou. "Um palhaço", disse o cão de caça, "um galinha morta", e ele se aproximou, usando a mão esquerda e mostrando um bom jogo de pés. Em menos de um segundo o cão de caça estava estirado no chão, e quando acordou, o cão da fazenda estava tirando-lhe espinhos. "Que aconteceu?" disse o cão da fazenda. "Ele me atacou com uma faca", disse o cão de caça, "mas,  ao menos aprendi como vocês lutam aqui no campo, e agora vou arrebentar você." Então ele se aproximou do cão da fazenda, segurando o focinho com uma pata da frente, para desviar o ácido sulfúrico, e cobrindo os olhos com a outra pata dianteira para defender-se das facas. O cão de caça não podia ver seu oponente e não podia farejar seu oponente e ele levou tamanha surra que teve de ser levado de volta para a cidade e posto numa clínica de repouso.
Moral: É melhor fazer algumas das perguntas do que saber todas as respostas.     

O URSO QUE DEIXOU PARA LÁ

Nas florestas do Velho Oeste viveu certa vez um urso marron que encarava qualquer parada ou a deixava para lá. Ia a um bar onde vendiam hidromel, uma bebida fermentada feita de mel, e tomava duas doses. Então, dava algum dinheiro ao dono do bar e dizia: "Veja o que os ursos ali do fundo querem", e ia para casa. Mas por fim, começou a beber sozinho, o dia todo. Ele cambaleava para casa de noite, chutava o suporte do guarda-chuva, derrubava os lustres, socava as janelas, quebrando-as. Então desmoronava no chão e ali ficava até dormir. Sua esposa se afligia e seus filhos ficavam com medo.
Finalmente o urso reconheceu o erro de suas ações e começou a reformar-se. No fim, fez-se famoso abstêmio e um conferencista pertinaz de temperança. Dizia a todos que vinham a sua casa acerca dos efeitos terríveis da bebida, e se vangloriava de ter ficado forte e saudável desde que abandonou aquela coisa. Para demonstrá-lo, apoiava-se na cabeça, e nos braços e virava carros na casa, chutando o suporte do guarda chuva, derrubava os lustres, socava as janelas, quebrando-as. Então, deitava-se no chão, cansado de seu saudável exercício, e dormia. Sua esposa se afligia e seus filhos ficavam com medo.
Moral: Aqui ou lá você pode dar-se mal.

A CORUJA QUE ERA DEUS

Era uma vez numa meia noite sem estrelas uma coruja que estava numa galho de uma carvalho. Duas toupeiras, em silêncio, tentavam passar despercebidas. “Vocês!” disse a coruja ? “Quem ?” responderam com voz trêmula, de medo e de pasmo, porque não podiam acreditar que alguém pudesse ver naquela noite escura. “Vocês duas!” disse a coruja. As toupeiras fugiram correndo e disseram às outras criaturas do campo e da floresta que a coruja era o maior e mais sábio de todos os animais porque podia ver no escuro e responder a qualquer pergunta. “Quero ver isso!”, disse uma serpentário, e chamou a coruja uma noite quando estava muito escuro. “Quantas patas estou levantando?”, perguntou o serpentário. “Duas”, disse a coruja, e estava certo. “Pode você dar-me outra expressão que signifique ‘ou seja’ ou ‘isto é’?”, perguntou o serpentário. “a saber”, disse a coruja. “O que faz o amante em seu amor?”, perguntou o serpentário. “cortejar”, disse a coruja.
O serpentário correu de volta para anunciar às outras criaturas que, de fato, a coruja era o maior e mais sábio dos animais do mundo, porque podia ver no escuro e sabia responder a qualquer pergunta. “Ela consegue ver durante o dia também?”, perguntou uma raposa vermelha. “Sim”, gritaram em uníssono um arganaz e um poodle francês. “Ela consegue ver durante o dia também?” Todas as outras criaturas riram alto desta pergunta tola, e eles perseguiram a raposa vermelha e seus amigos, expulsando-os da região. Então, mandaram um mensageiro à coruja e lhe pediram que fosse o seu líder.
Quando a coruja apareceu entre os animais era meio dia e o sol brilhava intensamente. Ela caminhava muito devagar, o que lhe dava uma aparência de grande dignidade, e ela olhava para eles, com olhos imenso e gazeados, o que lhe dava um ar de extrema importância. “Ela é Deus!”, gritou uma galinha de Plymouth Rock. E os outros passaram a gritar: “Ela é Deus!”, Então eles a seguiam para onde quer que fosse e, quando ela começou a trombar nas coisas, eles também faziam o mesmo. Finalmente chegou a uma estrada pavimentada e foi para o meio dela e todas as as outras criaturas a seguiram. Dentro em breve, um falcão, que servia de batedor, viu um caminhão, ao longe, vindo na direção delas, a 75 km por hora, e ele disse ao serpentário, e o serpentário disse à coruja. “Há perigo na nossa frente”, disse o serpentário. “A saber”, disse a coruja. O serpentário lhe contou. “Você não está com medo?”, perguntou. “Quem?”, disse a coruja, calmamente, pois não conseguia ver o caminhão. “Ela é Deus!”, gritaram todas as criaturas novamente, e elas ainda estavam gritando “Ela é Deus!”, quando o caminhão as atingiu, atropelando-as. Alguns dos animais ficaram apenas feridos, mas a maior parte deles, incluindo a coruja, foram mortos.
Moral: Você pode enganar muitos a maior parte do tempo.       

AS OVELHAS EM PELE DE LOBO

Não há muito tempo, havia duas ovelhas que vestiram peles de lobo e foram viver entre os lobos, como espiãs, para verem o que  estava acontecendo. Elas chegaram num dia de festa, quando todos os lobos  estavam cantando nas tavernas ou dançando na rua. A primeira ovelha disse à companheira: “ Os lobos são como nós, pois eles jogam e dão cabriolas. Todo dia é dia de festa na Lobolândia.” Ela tomou algumas notas num pedaço de papel ( o que um espião nunca deveria fazer ) e as intitulou “Minhas vinte e quatro horas na Lobolândia.”, porque ela havia decidido não ser mais espiã, mas escrever um livro sobre a “Lobolândia” e também alguns artigos para O Companheiro da casa das Ovelhas. A outra ovelha adivinhou o que ela estava planejando fazer, então escapuliu e começou a escrever um livro chamado “Minhas dez horas na Lobolândia.” A primeira ovelha suspeitou do que estava acontecendo quando percebeu q        que sua amiga tinha partido, então ela telegrafou um livro para seu editor, chamado “Minhas cinco horas na Lobolândia.” , o qual foi, antes do outro, anunciado para publicação. A outra ovelha imediatamente vendeu seu manuscrito para um sindicato de jornais para ser transformado em mini-série.
Ambas as ovelhas deram a mesma mensagem para os companheiros: os lobos eram como as ovelhas, pois jogavam e cabriolavam, e todo dia era dia de festa na “Lobolândia”. Os cidadãos da Ovelhândia foram persuadidos por tudo isso, e então abandonaram as sentinelas e deixaram suas barreiras. Quando os lobos desceram até eles, uma noite, uivando e babando, as ovelhas se deixaram matar tão facilmente como moscas numa vidraça.
Moral:Não entenda, apenas escreva. 



[1]Seal, em inglês, significa tanto foca como selo.

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